Saúde Sexta, 21 de Novembro de 2008

Esperanças brasileiras contra HIV

30/08/2008 - 16h38min

Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, anunciaram ontem a descoberta de três substâncias encontradas em algas marinhas que apresentaram resultados promissores como anti-retrovirais para o tratamento da Aids e como um germicida de uso vaginal, que poderia prevenir a doença. Os nomes estão em sigilo porque ainda não foram patenteados. Em laboratório, essas micromoléculas se mostraram eficazes em inibir a replicação do HIV e, ao contrário de outros anti-retrovirais, apresentaram um nível muito baixo de toxicidade. A mais promissora delas obteve 98% de eficácia com uma dose extremamente reduzida.

Essa substância está entre os 30 candidatos aceitos pela Aliança para o Desenvolvimento de Microbicidas, organização internacional financiada pela Fundação Bill e Melinda Gates. Os testes clínicos para o microbicida devem começar em 2010 e demoram, na melhor das hipóteses, quatro anos para serem concluídos. Serão realizados na África, porque precisam ser testados numa população com alto índice de infecção. Para os anti-retrovirais, será preciso mais tempo.

Os pesquisadores dependem de um financiamento de R$ 10 milhões para começarem os testes com animais, indispensáveis para a aprovação de medicamentos de uso oral ou injetável. O valor é baixo, se levado em conta que o país economizaria entre R$ 50 milhões e R$ 100 milhões por ano com a compra de anti-retrovirais. Atualmente, com exceção do AZT — entre os 17 medicamentos que compõem o coquetel anti-Aids —, todos os outros são importados ou produzidos com insumos do exterior.

O imunologista Luiz Roberto Castello Branco, coordenador do grupo descobridor das substâncias, formado por pesquisadores da Fiocruz, da Fundação Ataulpho de Paiva e da Universidade Federal Fluminense, afirma que as drogas serão “uma alternativa” para o arsenal terapêutico, “sobretudo para casos de resistência aos medicamentos já existentes”.

“Apoiamos financeiramente com uma parte pequena, mas temos interesses de acompanhar mais e estimular parcerias que fomentem o financiamento”, disse a representante do Programa Nacional DST/Aids, Cristina Possas. Segundo Castello Branco, o objetivo inicial era desenvolver um microbicida que as mulheres pudessem usar sem o conhecimento do parceiro. O crescimento do número de casos entre pessoas do sexo feminino e que vivem em união estável é alarmante na África e no Brasil.

Como não existem perspectivas de que uma vacina contra a Aids seja descoberta em menos de 10 anos, pesquisadores do mundo todo começaram a pensar em formas de prevenir a doença. Há vários estudos com microbicidas em andamento, feitos a partir dos anti-retrovirais já existentes, mas nenhum deles ainda chegou ao mercado. Para chegar às três substâncias que se revelaram capazes de inibir a replicação do HIV, os pesquisadores chegaram a analisar 22 micromoléculas diferentes.

A alga mais promissora é encontrada em toda a costa brasileira. “Se os testes forem positivos e esse princípio ativo chegar ao mercado, precisaríamos de muitas algas e poderíamos criar um problema ecológico, por isso já estamos tentando sintetizá-lo em laboratório e os testes clínicos já devem ser feitos com o fármaco, e não com a planta”, disse a pesquisadora da UFF Izabel Paixão. Segundo ela, cada uma das matérias-primas age de forma diferente, mas todas atuam na transcriptase reversa, enzima que ajuda na replicação do retrovírus, ou são inibidoras de protease (bloqueiam a atividade biológica da enzima protease do HIV, fazendo com que se encerre a reprodução viral).

A substância mais promissora demonstrou eficácia nessas duas fases, além de ser inibidora da morfogênese do vírus, característica que ainda não foi observada em qualquer dos anti-retrovirais existentes. Isso significa que, ainda que o vírus consiga se replicar, ele deixa de ser infeccioso. “O Instituto Oswaldo Cruz foi o primeiro a isolar o vírus da Aids, em 1987, e os avanços que anunciamos sobre as substâncias candidatas a anti-retrovirais são um passo importante na meta de gerar conhecimento básico aliado à inovação científica”, disse a diretora do IOC, Tânia Araújo Jorge.  



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