Jayme Monjardim não se emociona ao falar sobre a minissérie Maysa. Afinal, segundo ele, a trama de Manoel Carlos, que ele dirige em homenagem à trajetória de sua mãe, não terá características saudosistas. A intenção do paulistano de 52 anos, filho da cantora - que entoava com dramaticidade canções de fossa - com o industrial André Matarazzo, é mostrar a faceta vanguardista de uma artista que tinha atitudes corajosas. Como mandar o filho aos 7 anos estudar na Espanha - onde ficou até os 17 anos. Com isso, Jayme conviveu pouco com a mãe, que será interpretada pela estreante Larissa Maciel na minissérie da Globo.
A estréia está prevista para janeiro e a série teria apenas nove capítulos. Mãe e filho se tornaram muito amigos no último ano de sua vida, antes do acidente de carro que a matou em 1977. "O meu olhar nesta direção vai mostrar a essência do meu relacionamento com ela. Não existem resquícios de mágoas, mas um amor explícito, que está em todo esse trabalho", diz Monjardim. Ele começa a gravar as primeiras cenas na próxima terça-feira, com locações no Rio, Buenos Aires, Madri, Lisboa e Paris.
É possível ser imparcial em um trabalho que resgata a trajetória da sua mãe?
Jayme Monjardim - Te confesso que não foi fácil. Mas a cumplicidade do Maneco comigo é muito grande. Ele me equilibrou. Conseguiu dar uma visão realista, com todas as nuances e coloridos da Maysa como cantora e como mulher, sem que ficasse uma coisa agressiva ou até protegida, evidenciando que sou filho. Só no ar vamos poder mostrar que eu consegui o distanciamento necessário. O Maneco me ajudou muito nesse processo. Era necessária a intervenção dele para me dar esse afastamento.
Com a minissérie, a idéia do longa foi descartada?
Monjardim - Não. Talvez ele nasça da própria minissérie. Como nós estamos captando as imagens na mais alta tecnologia, existe um avanço bacana.
Na minissérie, além do software que faz com que a voz da Larissa fique mais parecida com a da Maysa, que outros recursos você utiliza?
Monjardim - Estamos trabalhando com câmaras novas, que têm uma qualidade além do HDTV. Temos uma visão futurista na tecnologia da minissérie, a mesma usada pelo (diretor) Luiz Fernando Carvalho na (minissérie) Capitu. Com esse equipamento, temos condições de transferir tudo para o cinema e pretendo transformar a minissérie num longa com o material captado. Trouxe o Afonso Beato para a minissérie. Ele é diretor de fotografia, mora em Los Angeles, e fez vários filmes fora do Brasil. Trabalhou com o (Pedro) Almodóvar, fez o longa A Rainha. Estamos num processo de fazer a mais alta tecnologia possível na televisão, que seja capaz de ser absorvida pelo cinema. Quando fizermos todo o tratamento de áudio, existe a possibilidade, mas não é 100%, de aproximarmos alguns tons do áudio entre as duas. Mas não vai ficar igual. Não tenho como pretensão fazer uma imitação da Maysa.
Existe uma ordem cronológica?
Monjardim - Primeiro, é impossível copiar ou imitar a Maysa. A Larissa está se preparando para ter a leitura dela, não há a proposta de cantar igual. Tem de deixar isso claro porque o público pode ficar comparando a Larissa à Maysa. É uma forma de trazer um trabalho que reflete uma época incrível no País. Queremos refletir a história de uma mulher que estava à frente de seu tempo. Em vez de mostrar uma mulher depressiva, prefiro contar a trajetória de uma mulher valente, corajosa. Não apenas a vida de uma cantora que cantou a tristeza. Também não teremos ordem cronológica. O Maneco achou melhor passear pelo tempo em quatro períodos da vida dela.
Por que a trama tem apenas nove capítulos?
Monjardim - É o número suficiente. Conquistamos isso dentro da Globo, de fazer minisséries mais curtas, onde a gente pode trabalhar mais o conceito. Dessa forma, tenho condições de aprimorar mais, mostrar detalhes, cuidados. Isso nos abre um mercado novo, do produto sofisticadíssimo em qualidade, textura, cor. Mas sem perder o que acho ainda mais importante que a tecnologia: o conteúdo.
Na contramão de toda essa tecnologia, Pantanal, novela com a qual você deslanchou como diretor, voltou ao ar. Como você reagiu?
Monjardim - Estou feliz em rever Pantanal. É uma obra que marcou minha vida, me projetou como diretor. Tenho muito orgulho e estou torcendo para que todo mundo veja. É um filho meu que está aí. Em Pantanal, você priorizou cenas externas, com poucas tomadas de estúdio. Ou seja, fez o caminho inverso das novelas até então.
Foi nesse trabalho que você imprimiu sua assinatura como diretor?
Monjardim - Foi. Contamos aquela história no momento em que o Brasil começou a respirar ecologia, porque até então não se falava no assunto. O Pantanal era pouco conhecido. Todo mundo sabia da Amazônia. Levantamos a questão de uma consciência ecológica. O (autor) Benedito (Ruy Barbosa) teve uma grande sacada. Não queríamos falar de regras de ecologia, mas mostrar o quanto era belo aquele cenário. Dezoito anos depois, quem vê a novela também se apaixona porque a história não fica velha. A natureza não envelhece.
Fonte: Mariana Trigo - TV Press
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