No último ano, os executivos da Suzano Papel e Celulose adotaram nos bastidores um código especial quando falavam entre si sobre o plano de construção da sua nova fábrica de celulose. A senha era a palavra "grandes".
Ao revelar ontem seu plano de investimento, a Suzano anunciou um programa bem mais complexo e grandioso que apenas uma linha de produção: a intenção é erguer três novas fábricas, a ampliação de uma unidade atual, a compra de terras para o plantio de eucalipto em Estados com pouca tradição na atividade e o fechamento de um acordo com a Vale do Rio Doce para que a mineradora forneça madeira e infra-estrutura logística.
O plano de investimento da Suzano alcança US$ 6,6 bilhões até 2015. Com isso, a fabricante espera chegar a produzir 6,1 milhões de toneladas de celulose por ano, acima dos 2,8 milhões de toneladas previstos para 2009 quando o atual ciclo de produção da companhia estiver completo. A companhia produz 1,1 milhão de toneladas de papéis.
Cada fábrica nova poderá produzir 1,3 milhão de toneladas por ano e exigirá investimentos de US$ 1,8 bilhão cada uma. A primeira delas ficará no sul do Maranhão, prevista para operar em 2013. A segunda deve ficar no Piauí, com data para 2014. Uma terceira poderá começar a operar em 2015 em um dos dois Estados, mas seu destino poderá ser outro até o fim deste ano, quando a empresa define o local para o investimento florestal do projeto.
Além das três fábricas, a Suzano prevê aplicar US$ 500 milhões para expandir a capacidade da atual unidade de Mucuri, no Sul da Bahia, que produzirá 400 mil toneladas a mais a partir do segundo semestre de 2011. Os investimentos em ativos florestais em todos os projetos somam US$ 700 milhões.
"Vamos mais do que dobrar de tamanho", disse o presidente da Suzano Papel e Celulose, Antonio Maciel Neto. A companhia avalia que poderá chegar a uma receita líquida acima de R$ 8 bilhões (a expectativa é que chegue a quase R$ 4 bilhões neste ano) e ampliar sua participação no mercado de celulose de 2% para 10% em 2015.
Os planos vão colocar a Suzano próxima da capacidade esperada pela Aracruz em 2015, quando prevê que estará produzindo 7 milhões de toneladas. Com seus projetos atuais, a expectativa é que Votorantim chegue a ultrapassar a 5,5 milhões de toneladas na metade da próxima década.
A Suzano disse que usará sua geração própria de caixa - que este ano, deve alcançar quase US$ 1 bilhão - além da ajuda do BNDES, bancos regionais e empréstimos com fornecedores para financiar os investimentos.
Ao ser questionado se a estratégia de crescimento com a construção de novas fábricas reduzirá o interesse da empresa em grandes fusões ou aquisições, Maciel Neto disse que a empresa poderá recorrer ao mercado de capitais. "Se precisar, o controlador poderá fazer um aumento de capital", afirmou.
A maior surpresa nos planos anunciados ontem foi o acordo com a Vale, com o qual a Suzano poderá economizar dois anos para dar início à primeira fábrica. A Suzano pagou US$ 110 milhões por 84,5 mil hectares de terras no sudoeste do Maranhão, dos quais 34,5 mil hectares com eucaliptos já plantados. Essas terras fazem parte do programa da Vale Florestal
"São terras planas com água e condições climáticas boas", disse, completando que os estudos da Suzano indicaram ser um dos últimos maciços de eucaliptos disponíveis para a exploração no país. A empresa prevê complementar sua necessidade de madeira com plantios próprios além da compra de terceiros.
O acordo também prevê que a Suzano poderá utilizar da infra-estrutura ferroviária da Vale na região, integrada pela Ferrovia Norte-Sul e a Estrada de Ferro de Carajás, para escoar a produção distante a 700 quilômetros do porto de Itaqui, no município de São Luís (MA), onde estuda-se a construção de um terminal privado.
Para a fábrica do Piauí, esperada para 2014, a Suzano planeja ampliar a compra de terras na região de Teresina combinando com fazendas em Urbano Santos (MA) onde já desenvolve há duas décadas pesquisas genéticas para o uso do eucalipto na região.
Prevê-se comprar mais madeira de terceiros na região do que no projeto do Maranhão. E estuda ainda as alternativas logísticas para escoar a produção utilizando também a via ferroviária: o porto de Itaqui ou Pecém (CE). Nas contas da Suzano, os planos de investimentos de todos os projetos vão criar cerca de 3,5 mil empregos diretos na fábrica e área florestal.
A Suzano também apresentou o resultado do segundo trimestre, que mostrou lucro líquido de R$ 185 milhões, uma alta de 7,8%. A nova capacidade da fábrica de Mucuri inaugurada em 2007 ajudou a bater recorde de produção. Apesar de o real valorizado ter afetado as exportações, o câmbio forte ajudou a reduzir a dívida da companhia. A receita da Suzano no trimestre superou R$ 1 bilhão.
Fonte: André Vieira, - Valor
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